Sobre o Grande Internamento: a experiência histórica da loucura na Europa nos séculos XVII e XVIII
No final da Idade Média “a lepra desaparece do mundo [europeu]” (H.L. p3). Por um lado, poderíamos compreender esse desaparecimento como o lento resultado da segregação dos leprosos na Europa e do fim das cruzadas (que teria estabelecido, finalmente, uma ruptura com os focos infecciosos no oriente). Mas, por outro lado, devemos também considerar o efeito que esse vazio iria representar para a sedimentação histórica da experiência clássica da loucura. Pois os leprosários, então esvaziados, seriam ocupados no final do século XV por toda sorte de indivíduos acometidos pelas doenças venéreas:
“esses doentes são recebidos em diversos hospitais de leprosos: sob Francisco I, tenta-se inicialmente coloca-los no hospital da paróquia de Santi-Eustache, depois no de Sain-Nicolas, que outrora tinham servido de gafarias. Por duas vezes, sob Carlos VIII, depois em 1559, a eles tinham sido destinadas, em Saint-Germain-des-Prés, diversas barracas e casebres antes utilizados pelos leprosos. Eles logo se tornam tão numerosos que é necessário pensar na construção de outros edifícios ‘em certos lugares espaçosos de nossa cidade e arredores, sem vizinhança’. (Foucault, História da Loucura, p.7)
Na época, as doenças venéreas eram encaradas sob uma perspectiva moral que demandava das instituições de cuidado práticas simultâneas de castigo, disciplina e tratamento. Isto é: “Na era clássica, a doença venérea tornou-se mais uma impureza que uma doença; é por ela que se ordenam os males físicos. A percepção médica é de longe comandada por essa intuição médica” (Foucault, História da Loucura, p. 86). Assim, o tratamento ofertados aos doentes venéreos, excluídos nos antigos leprosários, contava com: sangrias, banhos, purgações, confissões, chicotadas etc. Tratava-se de uma “terapêutica” que acreditava fazer da punição moral uma condição para a purificação do corpo e da alma. As formas de tratamento dos hospitais da época cumpriam um “cerimonial onde se reúnem, com uma mesma intenção purificadora, as chicotadas, os medicamentos tradicionais e o sacramento da penitência” (Foucault, História da Loucura, p. 85). Contudo, se as doenças venéreas iriam preencher esse vazio deixado pela lepra no início do Renascimento, é ao desatino que se refere a experiência clássica da exclusão. Pois, segundo Foucault, as formas de exclusão impostas anteriormente aos leprosos iriam permanecer durante os séculos posteriores tomando como alvo uma nova classe de indivíduos. Tal experiência iria assumir o título de Grande Internamento e, diferentemente dos leprosários, que eram caracterizados por uma assistência médica fechada sobre si mesma, o internamento iria se caracterizar como uma nova forma de exclusão que iria reproduzir sobre os desatinados a terapêutica moral desenvolvida para os antigos doentes venéreos.
Nos século XVI e XVII surgiram, em diferentes países da Europa, estabelecimentos voltados para a exclusão dos desatinados. Nos países de língua alemã, nasceram, a partir do século XVII, as cassas de correção para onde eram encaminhados todos indivíduos considerados transgressores. Na Inglaterra, no século XVI, surgiram as house of correction e depois, no século XVII, as workhouses. Na França, o marco inaugural deste processo poder ser datado com o decreto de fundação do Hospital Geral, de 1656. Apesar do nome, Foucault pôde perceber que não se tratava propriamente de uma instituição médica, mas sim de uma “estrutura semijurídica, uma espécie de entidade administrativa que ao lado dos poderes já constituídos, e além dos tribunais, decide julga e executa” (p.50) a internação daqueles que eram considerados desviantes. Essas instituições, espalhadas por toda a Europa, durante a época Clássica, puderam reunir no seu interior uma massa heterogênea de indivíduos que ou contradiziam os ideais morais ou não se inseriam de forma harmoniosa na estrutura econômica de trabalho que se constituía durante aquele período. Assim, para além de uma mera exclusão social, a prática do internamento pôde organizar “numa unidade complexa uma nova sensibilidade à miséria e aos deveres da assistência, novas formas de reação diante dos problemas econômicos do desemprego e da ociosidade, uma nova ética do trabalho e também o sonho de uma cidade onde a obrigação moral se uniria à lei civil, sob as formas autoritárias da coação” (p.56).
Assim, segundo Foucault, o Internamento representou “o momento em que a loucura é percebida no horizonte social da pobreza, da incapacidade para o trabalho, da impossibilidade de integrar-se no grupo” (p.78). Isto é, inserida na massa heterogênea de indivíduos desatinados que compunham a população das casas de internamento, a loucura iria assumir uma relação de parentesco com a ociosidade, com a incapacidade, com a vagabundagem, com a libertinagem, com devassidão e promiscuidade sexual etc. Esse parentesco que surgiu entre o louco e esses outros estigmas sociais, representaria a sedimentação de uma nova estrutura histórica que iria determinar o modo pelo qual nós ainda hoje concebemos a loucura.
O Grande Internamento teria representado a expressão material de uma nova demarcação morail traçada pela cultura europeia no período clássicista. No âmbito da loucura, o argumento de Foucault seria claro: não se tratava de reconhecer no internamento uma realidade social que teria mascarado a loucura da sua verdade psicológica e patológica; se trata, antes, de reconhecer na prática do Internamento a constituição de uma experiência (a experiência do desatino) cuja significação teria marcado todo o modo pelo qual a medicina viria posteriormente a encarar a loucura. Se a psiquiatria do século XIX propôs como terapêutica um “tratamento moral” para a loucura, isso só foi possível sobre o pano de fundo traçado pela experiência moral do Grande Internamento. Se a psicanálise pôde encontrar uma sexualidade latente na etiologia das doenças mentais, isso se deu, igualmente, sobre um pano de fundo estendido pela prática do Internamento que tratou de aproximar numa mesma instituição e numa mesma experiêncai diferentes formas de desvio social (internando num mesmo espaço loucos, vagabundos, criminosos, homossexuais, prostitutas etc.)
Nesse aspecto, a análise do período histórico do Grande Internamento permitiu à Foucault levantar uma leitura por meio da qual, ao invés de apelar à psiquiatria e à psicanálise para explicar o fenômeno da loucura, recorria-se a própria história da loucura para compreender a emergência de determindos posicionamentos teóricos sustentados pela psiquiatria e pela psicanálise. Isto é: não se tratava mais de recorrer aos saberes psi’s para explicar a loucura, mas sim de recorrer à própria experiência histórica da loucura para compreender o surgimento de determinados concepções sustentadas tanto pela psiquiatria quando pela loucura.