Sobre a História da loucura: uma arqueologia do silêncio

A História da loucura foi publicada em 1961. Na obra, Foucault buscou descrever, de um ponto de vista histórico, os processos de formação disso que hoje compreendemos por “doença mental”. O filósofo iria sustentar que a identificação entre loucura e doença mental seria recente e participaria do gesto que teria inaugurado na cultura europeia ocidental o início da Modernidade, a saber: a interiorização da verdade no homem. Isto é, em História da loucura Foucault buscou escrever uma história, não da constituição da psiquiatria; mas sim das condições de possibilidades históricas de produção desse foro íntimo, a psiquê, sob a qual poderia se alojar um discurso de verdade sobre o homem. Afinal: “O fato de que o comportamento de alguém considerado louco se torne objeto da busca da verdade, e de que um domínio de conhecimento se externe nele como disciplina médica, é um fenômeno antes recente cuja história é breve” (FOUCAULT, Ditos e escritos I: problematização do sujeito: psicologia, psiquiatria e psicanálise, p. 331-332).

Ao tomar como eixo de análise a experiência da loucura no ocidente clássico, Foucault pôde identificar uma série de temas polêmicos referentes às condições de delimitação de um campo de saber cuja prática teria resultado na exclusão e na domesticação da loucura pelo discurso e pela percepção médica. O interesse que conduziu Foucault à psiquiatria dizia mais respeito aos procedimentos de objetivação de uma verdade do homem a partir de sua loucura do que aos discursos teóricos produzidos pela medicina dos séculos XVIII e XIX. Afinal, em História da loucura não há uma história das ideias, mas uma crítica arqueológica sobre as formações históricas de determinados regimes de subjetivação. E se de alguma forma as análises do livro dedicam certa atenção às teorias de Willis, Tucke, Pinel, Esquirol, etc., elas o fazem a título de uma elucidação discursiva sobre a constituição da grade conceitual por meio da qual as experiências da loucura foram aprisionadas no domínio da doença mental. Assim, ao invés de considerar a loucura como um objeto natural que aos poucos foi ganhando a atenção refinada e a sensibilidade da percepção médica, Foucault buscou considerá-la como uma produção histórica, fruto de experiências culturais, sociais, econômicas, jurídicas, religiosas e epistemológicas que, de modo contingente, teriam sedimentado no ocidente uma compreensão específica do significado de “estar louco”. Assim, a pergunta que não cessa de aparecer ao longo da obra era: “como chegamos a interrogar-nos sobre a verdade do eu, fundamentando-nos sobre sua loucura?” (FOUCAULT, Ditos e escritos I: problematização do sujeito: psicologia, psiquiatria e psicanálise, p. 331).

Segundo Foucault, a constituição da verdade do homem produzida pela psiquiatria na modernidade seria tributária de uma estrutura histórica marcada por um duplo movimento: a divisão entre a loucura e a razão (a partir da produção de um discurso de verdade sobre o homem) e a exclusão do louco na sociedade (a partir da exclusão social e institucional provocado pelo manicômio psiquiátrico). Isto é:

Essa grande divisão, ele [o homem moderno] iria aprender a dominá-la, a reduzi-la ao seu próprio nível; a fazer nele o dia e a noite; a alinhar o sol da verdade e a frágil luz da sua verdade. O fato de ter dominado sua loucura, tê-la captado entregando-as às masmorras de seu olhar e de sua moral, tê-la desarmado empurrando-a para um canto dele próprio, autorizava o homem a estabelecer, enfim, dele próprio para ele próprio, essa espécie de relação que chamamos de “psicologia”. Foi preciso que a Loucura cessasse de ser Noite e se tornasse sombra fugitiva na consciência para que o homem pudesse pretender deter sua verdade e desatá-la no conhecimento. (FOUCAULT, Ditos e escritos I: problematização do sujeito: psicologia, psiquiatria e psicanálise, p. 159).

Produção de verdade e exclusão da loucura. Teriam sido estes os dois movimentos simultâneos que encontraram força de expressão nas análises de Foucault como chave de leitura para o esclarecimento do surgimento da psiquiatria e da psicologia como domínios de saber. Segundo o filósofo, o período Clássico teria instaurado essa divisão na ordem da linguagem, interrompendo, com isso, o diálogo entre a loucura e a razão, presente na cultura europeia desde a Idade Média. O silêncio imposto sobre a loucura no Classicismo iria constituir o fundo de onde iria emergir o discurso da futura psiquiatria. Assim, os séculos XVII e XVIII iriam preparar o terreno para a emergência da racionalidade da linguagem médico, destacada sobre o fundo mudo de uma loucura silenciada. Foucault iria declarar as intenções de sua pesquisa da seguinte forma: “não quis fazer a história dessa linguagem; antes, a arqueologia desse silêncio”. (FOUCAULT, Ditos e escritos I: problematização do sujeito: psicologia, psiquiatria e psicanálise, p. 141).