Frantz Fanon: o protesto de uma vida contra a colonialidade
Fanon nasceu Fort-de-France, capital da Martinica, em 1926, filho de Casimir Fanon e Eleanore Medelice. Passou sua infância e juventude no departamento ultramar francês situado no mar caribenho. Como seu pai era médico na administração francesa, Fanon teve acesso a bons estudos. No Lycée Schoelcher foi aluno do poeta e filósofo militante martinicano, Aimé Césaire, autor da famosa obra Discurso sobre o Colonialismo seguido de Discurso sobre a Negritude. Em 1943 Fanon deixou a Martinica para se juntar às forças da França Livre na Segunda Guerra Mundial. Segundo Hiddleston (Livro Pós-Colonialismo), foi durante esse momento de sua vida que Fanon experimentou o racimo europeu. Segundo a autora:
“Fanon experimentou o racismo dos aliados franceses e criticou o sistema de castas dentro do exército, onde os brancos eram posicionados no topo, enquanto os senegaleses, os primeiros a serem enviados para a batalha, permaneciam na base.” (Hiddleston, Pós-Colonialismo, p.44).
Tal como costuma ser comentado por seus biógrafos, Fanon compreendeu, através do racismo, que ele não era francês. Ainda assim, lutou ao lado da Resistência francesa contra os nazistas e em 1945, após o fim da guerra, retornou para sua terra natal onde apoio a candidatura de Aimé Césaire para prefeito da Martinica filiando-se ao Partido Comunista. Após um tempo, Fanon foi para Lyon, na França, para realizar seus estudos em psiquiatria. Durante sua formação na França, teve contato com os trabalhos de Sartre, Merleau-Ponty e Lacan, dentre outros. Em 1951, com apenas 25 anos de idade, Fanon terminou a redação de sua tese de exercício para a conclusão de curso em psiquiatria, Ensaio sobre a desalienação do negro. Contudo, a comissão julgadora recusou o manuscrito, devido ao seu caráter original e às análises subjetivas que se distanciavam, em diversos aspectos, da formatação positivista do discurso acadêmico que era mais tradicional e conservador. Devemos também notar na recusa do manuscrito o reflexo do racismo institucional da academia francesa. Em pouco tempo Fanon preparou outro trabalho que submeteu ao juízo da banca sob o título de Alterações mentais, modificações de caráter, distúrbios psíquicos e déficit intelectual na heredogeneração espinocerebelar: um caso de doença de Friedreich em delírio de possessão. Tratava-se da análise de um caso clínico acompanhado e tratado por Fanon na época. Pouco tempo depois, Fanon acabou publicando seu trabalho original, que fora recusado pela banca examinadora, sob o título Pele negra e máscaras brancas. Na ocasião procurou um dos editores da revista Les Temps Modernes, Francis Jeanson, solicitando a indicação de alguém que pudesse prefaciar seu livro. Jeanson acabou aproximando Fanon de Jean-Paul Sartre, eminente filósofo existencialista francês. que escreveu o prefácio da obra. Pele negra e máscaras brancas pode ser compreendida como uma das expressões mais significativas do pensamento anti-colonial, pois aprofunda as análises sobre as relações existentes entre a psicopatologia dos transtornos mentais e a violência colonial em seus aspectos materiais, sociais, simbólicos e subjetivos. Apesar da originalidade da obra, o livro incialmente só foi aceito pelo público europeu devido ao prefácio de Sartre. Tal situação evidenciava, mais uma vez, o racismo estrutural da cultura europeia, que teve a sua atenção despertada para o livro apenas devido ao prefácio escrito por uma filósofo europeu branco.
Após concluir seus estudos em medicina e formar-se como psiquiatra, Fanon trabalhou durante dois meses no hospital de Pontorson, na Normandia, e depois assumiu, em 1953, um cargo no hospital psiquiátrico de Blida-Joiville em Argel. Na época, seguindo as hipóteses já traçadas e sustentadas em Pele negra e máscaras brancas, o psiquiatra debruçou-se sobre as questões relacionadas entre cultura e loucura. Fanon se engajou também em “reformar” o atendimento no hospital, que na época contia pacientes que na sua maioria eram considerados como incuráveis. A administração do hospital separava os internos segundo o gênero e a etnia: homens e mulheres, europeus e não-europeus. Fanon ficou encarregado de duas alas: uma masculina, com argelinos, e outra feminina, com mulheres europeias. Na época, buscou submeter as duas alas a um modelo de socioterapia. Mas enquanto a ala feminina respondeu bem á proposta de tratamento, a ala masculina acabou frustrando suas expectativas. Esta expectativa acabou rendendo o artigo Socioterapia numa ala de homens mulçumanos: dificuldades, escrito em parceria com Jacques Azoulay em 1954. Neste textos, os autores buscaram expor as principais dificuldades na implementação da socioterapia na ala com pacientes masculinos argelinos. Por socioterapia devemos entender uma proposta, bastante inovadora para a época, que consistia em organizar atividade coletivas e comunitárias, reunindo a equipe médica, a equipe de enfermagem, a administração do hospital e os pacientes internados. A proposta consistia em realizar atividades vinculadas à realidade cultural dos pacientes, buscando, a partir disso, efeitos terapêuticos. Enquanto a ala feminina aderiu sem resistência às propostas, a ala masculina, por outro lado, se demonstrou contrariada diante das propostas iniciais. Segundo o artigo de 1954, podemos compreender que a dificuldade estava no reconhecimento da cultura campesina e mulçumana dos argelinos, que era muito distante das atividades propostas com referência à cultura europeia. Assim, a experiência na ala masculina não representou um fracasso de fato, mas sim uma constatação diante do fato de que socioterapia com mulçumanos não poderia partir de atividade próprias à cultura europeia, mas que deveriam partir da realidade cultural do próprio argelinos. Desse modo, Fanon encerrou o artigo constatando:
“Em suma, vimos por que nossas primeiras tentativas de realizar socioterapia entre os pacientes mulçumanos resultaram em fracasso. Acreditamos, porém, que esse fracasso não foi inútil, uma vez que compreendemos as razões que o produziram. Desde então, modificamos o sentido de nossos esforços e podemos ver algumas realizações se consolidarem. A criação de um café mourisco no hospital, a celebração regular das festas mulçumanas tradicionais e as reuniões periódicas em torno de um “contador” profissional já são fatos concretos. A cada nova manifestação, o número de pacientes envolvidos nas atividades aumenta. Essa vida social está apenas começando, mas desde já acreditamos que os erros metodológicos foram superados.” (Fanon, Alienação e liberdade, p. 193).
Contudo, a experiência acabou sendo interrompida ainda em 1954, quando eclodiu a Guerra de Independência da Argélia. Com o início da guerra, atendendo num hospital psiquiátrico, Fanon viu-se diante de uma realidade brutal:
“Tratando de vítimas de tortura e daquele com doenças psicológicas relacionadas com a violência, ele testemunhou em primeira mão as cicatrizes mentais causadas pelo conflito e começou a se posicionar contra esses horrores” (Hiddleston, Pós-Colonialismo, p.45).
Ao constatar as limitações de seu trabalho como psiquiatra e ao constatar também a perversidade da violência colonial, Fanon juntou-se à Frente de Libertação Nacional e pediu demissão do hospital Blida-Joinville. Redigiu e enviou uma carta a Robert Lacoste em dezembro de 1956 anunciando os motivos de sua demissão com as seguintes palavras:
“A loucura é um dos meios que o homem tem de perder sua liberdade. E posso dizer que, situado nessa interseção, mensurei com horror a amplitude da alienação dos habitantes deste país. Se a psiquiatria é a técnica médica que visa permitir ao homem não mais ser estrangeiro em seu meio, devo afirmar que o árabe, alienado permanente em seu próprio país, vive um estado de despersonalização absoluta. O status da Argélia? Uma desumanização sistemática. Ora, a aposta absurda era querer criar a todo curso certos valores, porém o não direito, a desigualdade e o assassinato foram alçados a princípios legislativos. A estrutura social que existe na Argélia se opõe a qualquer tentativa de recolocar o indivíduo no seu lugar.” (Fanon, Alienação e liberdade, p. 293)
Em janeiro de 1957, apenas um mês após apresentar sua carta de demissão, Fanon foi expulso da Argélia. Com o apoio da Frente de Libertação Nacional, exilou-se em Túnis (Marrocos) e engajou-se na luta do anti-colonialismo. Foi durante esse período de sua vida que escreveu seus textos de maior cunho político, demonstrando, por meio deles, um compromisso militante com a luta pela libertação colonial. Em 1959/60, Fanon publicou O ano 5 da revolução argelina e apresentou um curso de Psicopatologia Social no Instituto des Hautes Étudies de Túnis. O curso versava sobre as relações entre sociedade, psiquiatria, racismo e colonização. Durante uma viagem pelo continente africano foi diagnosticado com leucemia e em 1961 viajou para os Estados Unidos buscando tratamento para a doença. Antes de morrer, publica no mesmo ano sua obra mais conhecida, Os condenados da Terra. Após a morte de Frantz Fanon, Josie Fanon, sua esposa, editou uma coletânea de textos que foram publicados sob o título, Por uma revolução africana.