Sobre a clínica fenomenológico-existencial
A clínica fenomenológico-existencial surgiu na primeira metade do século XX como um esforço de aproximação entre a filosofia fenomenológica, a clínica psiquiátrica e a psicanálise.
Por fenomenologia, devemos entender o movimento filosófico que surgiu na Alemanha na virada do século com a obra de Edmund Husserl (1859-1838). A fenomenologia buscou compreender o modo como os fenômenos poderiam vir a se constituir para a consciência a partir de uma análise descritiva da própria experiência. O método fenomenológico foi proposto, assim, por Husserl mediante uma via redutiva, que buscava suspender os preconceitos teóricos sedimentados pela tradição e pela cultura, de modo a viabilizar uma descrição do fenômeno tal como ele se dava na consciência.
Diferentemente da psicologia experimental, que compreendia a consciência como uma ipseidade formada por representações e distinta do mundo exterior, a fenomenologia iria conceber a consciência como uma estrutura dinâmica e indissociável do mundo. Nesse aspecto, para a fenomenologia não haveria distinção entre sujeito e objeto, pois ambos estariam dados de forma intrínseca. Ao longo de sua obra, Husserl propôs a fenomenologia como uma fundamentação das ciências dotada da tarefa de esclarecer as bases da teoria do conhecimento a partir de uma descrição rigorosa das estruturas fundamentais da consciência.
Posteriormente, a fenomenologia acabou fecundando o pensamento filosófico ocidental, dando origem ao existencialismo e à hermenêutica contemporânea.
O existencialismo foi um movimento que surgiu a partir dos trabalhos de autores como M. Heidegger (1889-1976), J.P. Sarte (1905-1980), M. Merleau-Ponty (1908-1961) e Simone de Beauvoir (1908-1986), dentre outros. Esta filosofia buscou refletir sobre a existência humana compreendendo-a, não como um ente determinado por uma natureza prévia, mas sim como um ser aberto ao mundo e marcado por um indeterminação ôntica. Assim, suspendendo a compreensão tradicional de subjetividade, a fenomenologia-existencial iria conceber a existência humana como a temporalização de um ser-no-mundo (ser-aí (Da-sein)) que a cada instante de sua existência se vê diante da tarefa de ter de assumir para si seu próprio ser. Isto é:
“Todas as representações encapsuladas objetivantes de uma psique, um sujeito, uma pessoa, um eu, uma consciência usadas até hoje na psicologia e na psicopatologia devem desaparecer na visão daseinsanalítica [da análise existencial] em favor de uma compreensão completamente diferente. A constituição fundamental do existir humano a ser considerada daqui em diante se chamará Da-sein ou ser-no-mundo. Entretanto, o Da deste Da-sein não significa, como acontece comumente, um lugar no espaço próximo observador. O que o existir enquanto Da-sein significa é um manter aberto de um âmbito de poder-apreender as significações daquilo que aparece e que se lhe fala a partir de sua clareira. O Da-sein humano como âmbito de poder-apreender nunca é um objeto simplesmente presente. Ao contrário, ele não é de forma alguma e, em nenhuma circunstância, algo passível de objetivação.” (Heidegger, 2009, p. 33)
Tal perspectiva acabou fecundando diferentes esferas das ciências humanas. Tanto a psicologia quanto a psiquiatria, por exemplo, foram marcadas, ao longo do século XX, pelo pensamento fenomenológico-existencial. No campo da psiquiatria, foram diversos os autores que buscaram pensar a teoria e a prática clínica através do método fenomenológico e da filosofia da existência. Dentre eles, vale citar: K. Jaspers (1883-1869), L. Binswanger (1881-1966), M. Boss (1903-1990), A. Tatossian (1929-1995), T. Fuchs (1958-), dentre outros.
Binswanger e Boss costumam ser comentados como os “fundadores” da psiquiatria fenomenológico-existencial. Ambos eram psiquiatras com formação em psicanálise, mas que acabaram aos poucos se distanciando da teoria freudiana e incorporando elementos da filosofia fenomenológica em seus trabalhos clínicos.
Na terapia fenomenológico-existencial, busca-se compreender as questões do paciente tal como elas aparecem na situação clínica, sem a pressuposição de uma teoria prévia acerca do psiquismo ou do comportamento humano. Nesta abordagem, há uma ênfase pela compreensão do sofrimento psíquico a partir da elaboração do sentido de projeto de vida que cada ser humano traz consigo na sua relação com seu mundo circundante. Nesse aspecto, ao invés de compreender o sofrimento psíquico como uma desregulação fisiológica ou um desequilíbrio interno pulsional, a análise existencial busca pensar os transtornos do ser humano como modificações de sua disposição temporal e de sua experiência de mundo.
Um sujeito que sofre de depressão, por exemplo, não tem apenas uma diminuição no nível de serotonina no seu organismo. Ele sofre, sobretudo, de uma relação específica que se impõe para ele a partir de sua própria temporaldiade, que parece se fechar sobre si mesma de tal modo que as coisas que lhe vem ao encontro no mundo se apresentam sempre afinadas pelo sentido da tristeza e o tempo se torna estático, com o futuro retraído, resultando, assim, num sentimento de desesperança, como se “não houvesse futuro”. Isso significa que, segundo Cardinalli, “a doença humana, nessa perspectiva, não é pensada no sentido de um funcionamento defeituoso de uma máquina que precisa ser reparado, uma vez que é compreendida como perda da liberdade e uma limitação do viver” (Cardinalli, 2012, p.101).
O trabalho da terapia, no ambito da análise fenomenológico existencial, consiste então em elaborar o sofrimento do indivíduo de modo a articular suas possibildiades de vida com o sentido de seus projetos. Não se trata de adequar ou adaptar o indivíduo às exigências que lhe são impostas (num sentido de “ajustamento”), nem de simplesmente medicá-lo; mas sim de compreender o sentido do sofrimento que emerge a partir do modo como o sujeito vivencia o seu tempo e a sua história.