Sobre a fenomenologia de Merleau-Ponty
A filosofia de Merleau-Ponty, junto com a de Sartre, ajudou a difundir na cultura francesa o pensamento fenomenológico no contexto do pós-guerra. Nascido em 1908 em Rochefort, na França, Merleau-Ponty graduou-se em filosofia na Escola Normal Superior de Paris em 1931. Suas duas primeiras obras publicadas foram sua tese menor, A Estrutura do comportamento, e sua tese principal de doutoramento, Fenomenologia da percepção. Ambas as obras refletem um diálogo intenso com os saberes psicológicos de seu tempo e lidam diretamente com o tema do dualismo moderno e a distinção entre mente e corpo, cuja questão aparecia nos debates filosóficos a partir do tensionamento entre duas posições antitéticas: o intelectualismo (que priorizava a posição do sujeito como fundamento do conhecimento) e a empirismo (que priorizava a posição do objeto como condição para o conhecimento).
Em A Estrutura do comportamento, o filósofo buscou explicitar suas intenções, indicando que pretendia discutir as relações entre natureza e consciência. No âmbito desta relação (entre consciência e natureza) poderíamos pressupor um retorno às dicotomias próprias da filosofia moderna e tributárias do dualismo cartesiano, que argumentava uma distinção ontológica entre res extensae e res cogitans. Contudo, era justamente contra essa posição dualista que Merleau-Ponty buscou organizar suas críticas. Num certo sentido, podemos compreender que o filósofo buscou argumentar que a experiência, tal como ela se dava no plano mesmo do nosso ser, não poderia ser reduzida aos pressupostos ontológicos oriundos de uma perspectiva que concebia sujeito e objeto como termos opositores (o “psíquico” e o “físico”, o “interno” e o “externo”, o “mental” e o “material”, etc.). Pelo contrário. Segundo Merleau-Ponty, ao atentarmos para os fatos reunidos pelas pesquisas científicas das psicologias de sua época, testemunharíamos uma contradição entre aquilo que seus resultados apontavam e os postulados e princípios espontaneamente adotados por elas.
Isto é, segundo Merleau-Ponty, os fatos e os materiais reunidos pelos experimentos da psicologia de sua época contradiziam os pressupostos ontológicos sustentados pelo mecanicismo ou pelo intelectualismo presentes na psicofisiologia clássica alemã, no behaviorismo americano, na teoria do arco reflexo e no Gestaltismo. Dessa forma podemos notar em A Estrutura do comportamento uma crítica de Merleau-Ponty às ontologias implícitas do pensamento “científico” da psicologia. É nesse sentido que devemos interpretar a relevância dada à noção de “comportamento” naqueles primeiros anos de trabalho. Afinal, segundo o autor, “essa noção nos parece importante, porque, tomada nela mesma, é neutra com relação às distinções clássicas do “psíquico” e do “fisiológico” e pode, pois, nos dar a ocasião de defini-los novamente” (Merleau-Ponty, A Estrutura do comportamento, 2006, p. 3).
O retorno à experiência, em suas condições de significação, representaria, para Merleau-Ponty, o momento mesmo de abertura e de passagem de um pensamento
crítico da psicologia em direção a um pensamento propriamente fenomenológico. Afinal, o “retorno às coisas mesmas” (lema do movimento fenomenológico) seria senão essa retomada do sentido da experiência a partir dos seus próprios modos de doação. Assim, levantando fortes críticas à psicofisiologia, à psicologia comportamental e à psicologia da forma, Merleau-Ponty buscou argumentar que um esclarecimento rigoroso dos fenômenos relacionados à percepção e ao comportamento humano, deveria tomar por base, não uma teoria psí, mas sim uma descrição fenomenológica. Nas suas palavras:
“A psicologia como ciência não tem nada a temer de um retorno ao mundo percebido, nem de uma filosofia que tire as consequências desse retorno. Longe de ser nociva à psicologia, tal atitude extrai, ao contrário, a significação filosófica de suas descobertas. Pois não há duas verdades, não há uma psicologia indutiva e uma filosofia intuitiva. A indução psicológica nunca é apenas o meio metódico para aperceber certa conduta típica, e se a indução encerra a intuição, inversamente a intuição não opera no vazio, ela se exerce nos fatos, nos materiais, nos fenômenos trazidos á luz do dia pela pesquisa científica. Não há dois saberes diferentes, mas dois graus diferentes de explicação do mesmo saber. A psicologia e a filosofia se nutrem dos mesmos fenômenos, apenas os problemas são mais formalizados no nível da filosofia.” (Merleau-Ponty, O primado da percepção 2015, p.48-49).
Em Fenomenologia da percepção, Merleau-Ponty buscou dar continuidade às análises de A Estrutura do comportamento. Nesta obra, podemos testemunhar o modo pelo qual o filósofo iria acentuar o caráter originário da percepção, contrapondo o corpo objetivado pela perspectiva científica à experiência do corpo próprio, descrito na situação de uma vivência originária. Segundo Merleau-Ponty, “a percepção não é uma ciência do mundo, não é nem mesmo um ato, uma tomada de posição deliberada; ela é o fundo sobre o qual todos os atos se destacam e ela é pressuposta por eles” (Merleau-Ponty, 2018, p.6). Logo, Merleau-Ponty buscou reabilitar a noção de corpo, não como uma estrutura psicofisiológica, mas como uma experiência de mundo, como a condição mesma de nossas possibilidades enquanto ser-no-mundo: “o corpo é nossa meio geral de ter um mundo” (Merleau-Ponty, 2018, p.203); ou dito de outra maneira: “nele podemos aprender a conhecer esse nó entre a essência e a existência que em geral reencontramos na percepção” (Merleau-Ponty, 2018, p. 204). Se anteriormente, em A Estrutura do comportamento, Merleau-Ponty havia buscado superar as contradições dos dualismos ontológico a partir da noção estrutural de comportamento, agora, com a Fenomenologia da Percepção, a superação destas dicotomias seria pensada a partir da noção de “corpo” como “ser-no-mundo”. Segundo o filósofo, a principal questão de sua obra poderia ser compreendida nos seguintes termos: “A Fenomenologia da percepção visa responder uma questão que já havai sido posta por mim há dez anos antes e que, conforme creio, também foi posta por toda a minha geração: como sair do idealismo sem recair na ingenuidade do realismo?” (Merleau-Ponty Parcour 2006, p.66).
Na perspectiva de Merleau-Ponty, um dos maiores prejuízos da modernidade estaria justamente no dualismo expresso a partir das dicotomias sujeito x objeto, idealismo x realismo, corpo x mente, intelectualismo x empirismo etc. Essa lógica antitética se fazia presente no seio do pensamento científico em geral, e no interior da psicologia em particular. Assim, visando corrigir as distorções produzidas pelo cientificismo e pela psicologia de seu tempo, o filósofo buscou elaborar uma descrição fenomenológica dos fenômenos da percepção de modo a evidenciar, não uma oposição binária entre mente e corpo, mas sim a sua relação intrínseca. Isto é, segundo Merleau-Ponty, a análise fenomenológica permitia evidenciar mente e corpo como uma estruturas imanentes enlaçadas na experiência ambígua do corpo próprio, que seria simultaneamente sujeito e objeto para a experiência perceptiva. Segundo o filósofo:
“Se refletirmos na essência da subjetividade, eu a encontro ligada à essência do corpo e a essência do mundo, é porque minha existência como subjetividade é uma e a mesma que minha existência como corpo e com a existência do mundo, e porque finalmente o sujeito que sou, concretamente tomado, é inseparável deste corpo-aqui e deste mundo-aqui. O mundo e o corpo ontológicos que reconhecemos no coração do sujeito não são o mundo em ideia ou o corpo em ideia, são o próprio mundo contraído em uma apreensão global, são o próprio corpo como corpo-cognoscente.” (Merleau-Ponty, Fenomenologia da Percepção, 2018, p. 547).
